Em entrevista, Eduardo Campos diz que se considera um político de esquerda


Confira abaixo a íntegra da entevista do governador Eduardo Campos à Folha de São Paulo nesta quarta-feira (21), momentos depois de ter eleito sua mãe para o Tribunal de Contas da União:
Folha/UOL: O governador de Pernambuco, Eduardo Henrique Accioly Campos, tem 46 anos e nasceu no Recife. É o atual presidente do PSB, Partido Socialista Brasileiro, que também foi de seu avô, Miguel Arraes.
Eduardo Campos é formado em economia pela Universidade Federal de Pernambuco. Já exerceu mandatos de deputado estadual e federal. Foi ministro de Ciência e Tecnologia no governo Lula.
Em 2010, apoiou Dilma Rousseff para presidente.
Nas especulações sobre 2014, Eduardo Campos aparece citado como possível candidato a senador, vice-presidente e até presidente da República.
Folha/UOL: Governador, hoje, dia 21 de setembro, quarta-feira, o sr. comparece aqui ao estúdio do Grupo Folha depois que a Câmara dos Deputados escolheu em votação a deputada Ana Arraes para uma vaga no Tribunal de Contas da União, o TCU. Ana Arraes, sua mãe. Como foi sua campanha a favor de Ana Arraes nesse processo.
Eduardo Campos: Olha, Fernando, eu fui deputado federal em três legislaturas. E tive a oportunidade de votar várias vezes para vários companheiros irem ao Tribunal de Contas da União. Porque, segundo a Constituição, três dos 11 ministros do TCU são de indicação privativa da Câmara dos Deputados.
Na verdade, nunca passou pela nossa cabeça que a deputada Ana, do PSB, da bancada pernambucana seria candidata ao TCU. Até pensamos, quando apontava ali a aposentadoria do ministro Ubiratan Aguiar, em quem eu votei em 2011 para ir para o TCU, em outros nomes, que declinaram do convite... Enfim. Mais do que de repente um conjunto de parlamentares animaram a deputada Ana para esse desafio. E como presidente do partido eu não poderia faltar ao nosso apoio.
Muitas pessoas que a conheciam pouco porque ela está no segundo mandato passaram a conhecê-la. Ou eram companheiros meus de Câmara, de atividade política no movimento estudantil, na formação do nosso partido pelo Brasil afora. A quem me procurou eu pedi um voto. Não poderia fazer diferente.
F/UOL: Mas a impressão que se tem é que nessa campanha pela eleição da deputada Ana Arraes ao TCU a sua presença foi muito robusta. O sr. como governador de Pernambuco fez campanha, isso não era segredo, falou com muitos agentes políticos externos. Falou com governadores de Estado, falou com o ex-presidente Lula, com o ex-governador de Minas Gerais, agora senador, Aécio Neves. Muita gente enxergou nessa sua campanha uma pressão excessiva sobre a Câmara. Existiu isso?
E C: De forma nenhuma. A Câmara é soberana. A Câmara não aceita esse tipo de interferência. O voto no plenário ele se dá numa outra lógica. Fui parlamentar, fui líder partidário, vivi intensamente a Câmara. Qualquer movimento na Câmara que venha de fora para dentro ele é normalmente refutado.
Os que disputaram com ela [com Ana Arraes] são parlamentares experimentados, respeitáveis, nomes consolidados na política brasileira. Foi uma disputa que o parlamento decidiu. Você não imagina que eu tendo uma companheira de partido, que foi a deputada federal mais votada do meu Estado, pela expressão dos votos, que tem formação em direito reconhecida, que é concursada da Justiça brasileira, por concurso público, se coloca legitimamente dentro da regra estabelecida pela legislação brasileira numa disputa, e que eu não pudesse dar um telefonema a um deputado amigo meu um voto ou uma atenção para a candidatura dela. É óbvio que fiz isso, como fiz de outros companheiros muitas vezes. Ela disputou a eleição com Aldo [Rebelo, PC do B-SP], que é um querido amigo de quem eu fiz campanha para presidente [da Câmara] por mais de uma vez da Câmara dos Deputados.
F/UOL: Ainda assim há uma interpretação de que a sua participação no processo de eleição da deputada Ana Arraes, sua mãe, ao TCU, acabou robustecendo um pouco mais a figura do político Eduardo Campos, que é governador de Pernambuco, que tem alguma inserção nacional e passou a ter um pouco mais agora. O sr. sente um pouco mais de força política depois desse processo?
E C: Não, de forma alguma. Isso não tem uma relação com o mundo da política cá fora do Parlamento. Essa é uma discussão própria do Parlamento brasileiro para uma corte de contas, como se faz rotineiramente. Eu tive oportunidade, como disse há pouco, de diversas vezes apoiar candidatos nem do meu partido nem do meu conjunto político, mas que era próprio da dinâmica ali do Parlamento. Pessoas que demostravam ter experiência, ter espírito público, ter formação, para ser julgador.
F/UOL: O sr. falou com o presidente Lula, que o ajudou, ele estava a favor da candidatura da deputada Ana Arraes. Como foi sua conversa com ele? Porque havia outro candidato, que era Aldo Rebelo, que foi ministro de Lula.
E C: Eu estava na casa do presidente Michel Temer, num debate com diversos partidos sobre a reforma política, quando chegou o resultado das eleições. Então era inevitável que eu falasse [com Lula], o presidente estava ali do lado, de quem eu também fui ministro, de quem eu sou amigo. E quem expressou, claramente, em algumas oportunidades, em reuniões que fez, o apoio político à candidatura de Ana, como outras lideranças que não são sequer da base de sustentação do nosso governo federal que falaram também. Como o governador Alckmin, como outros companheiros do PSDB, o próprio líder [do PSDB na Câmara] Duarte [Nogueira], o próprio senador Aécio Neves...
F/UOL: A deputada Ana Arraes havia dito que se eleita se declararia impedida quando algum assunto fosse diretamente ligado ao governo de Pernambuco porque o sr. é o governador de Pernambuco. Não seria o caso de no futuro imaginar um TCU que fosse mais infenso à presença dos políticos lá. E que a Câmara e o Senado indicassem outro tipo de integrante para o TCU, que não fosse ex-integrantes do Parlamento?
E C: Não. Isso é uma definição da Constituição, né...
F/UOL: Mas a Constituição não obriga a eleger um deputado...
E C: Mas também não veta. Não é porque é parlamentar que não presta para ser ministro. Isso é uma visão preconceituosa, errada. Até porque foram os parlamentares eleitos pelo povo que criaram a institucionalidade do Tribunal de Contas com a expressão que ele tem hoje.
Não fosse os políticos, nós não teríamos Ministério Público, nós não teríamos Tribunal de Contas, nós não teríamos Polícia Federal enfrentando, como têm enfrentado, a corrupção, as mazelas do patrimonialismo. Essa visão contra político nos levou em determinado momento a uma ditadura aonde as cortes de contas não apitavam nada. Aonde faltou política, liberdade, Parlamento livre, falta transparência, falta liberdade de imprensa. Eu acho que essa visão de jogar preconceito sobre os políticos é uma visão completamente equivocada.
F/UOL: Mas nesse caso específico é só a auditoria, porque a função do TCU é a de autidar... Como ele audita também o Congresso, não fica um pouco complicado?
E C: Pela lei, pela Constituição, o Poder que cabe fiscalizar é o Poder eleito pelo povo. Até porque, esse poder também é fiscalizado pelo povo. O povo tira. Quem vai para lá e faz errado, o povo saca na eleição seguinte. E muitas vezes o que passou simplesmente por um concurso ele está ali permanentemente. O instrumento de retirar é muito mais... Hoje, esses órgãos têm uma equipe técnica muito consistente.
Eu digo isso porque quando cheguei ao governo de Pernambuco eu me vali, para formar a nossa equipe, de muito técnicos do Fisco -onde você tem carreiras e muita gente com capacidade de treinamento e formação-, das Procuradorias -tanto do Estado quanto nacionais- e muito do Tribunal de Contas, onde você tem técnicos de grande valor, aonde a gente pode montar boas equipes. Esses técnicos, essa massa crítica que a instituição ganha, ela efetivamente tem uma grande importância para subsidiar, para lastrear decisões que são decisões do plenário, de quem vai para lá conhecendo o Brasil real, sabendo como é um município de 3.000 pessoas no alto sertão do Nordeste, em termos de equipe técnica para proceder uma licitação, para fazer um projeto, para prestar contas num balancete de responsabilidade fiscal. Ou seja, porque eu acho muito importante os órgãos de controle. Muito. Acho que é algo que a gente deve valorizar, e muito. Mas nós também precisamos no Brasil valorizar também a formação dos gestores em nível dos municípios. Até porque legislação hoje para quem gere a coisa pública, o conjunto de regulamentos que existem, se você não treinar bem o gestor e sua equipe, naturalmente esse gestor vai ter dificuldades.
F/UOL: O sr. esteve hoje, nesta quarta-feira, numa reunião com o vice-presidente da República, Michel Temer, que aliás está exercendo a Presidência da República agora, com a não presença de Dilma Rousseff, que está em Nova York, e com o ex-presidente Lula. O tema foi reforma política. O que foi discutido e o que se decidiu.
E C: Avançar no financiamento público de campanha e ao mesmo tempo em regras do próprio sistema eleitoral, como a questão de coligações, por exemplo.
F/UOL: Quem estava? Michel Temer, Lula...

E C: Estavam a direção do PMDB, a direção do PSB, a direção do PDT, a direção do PC do B e a direção do PDT.
F/UOL: E do PT também?
E C: Do PT também. E vamos seguir falando com outros partidos.
F/UOL: O que foi pactuado?
E C: O pactuado: o financiamento público, exclusivamente público. Isso é o que os partidos vão decidir nas suas direções, mas ali ficou claro de que a gente tinha que fechar uma posição, aí cabe a cada um levar para debater nas suas instâncias. No nosso caso [do PSB] já está resolvido, nós apoiamos o financiamento exclusivamente público. Pactuado também que iríamos votar o relatório do Fontana [Henrique, deputado do PT-RS], para que a discussão possa avançar, mesmo que tenhamos divergências sobre alguns pontos do relatório do Fontana. Mas dá prova de que há possibilidade ainda de haver alguma reforma. E algo que surgiu, Fernando, e eu queria aqui destacar, é a necessidade de a gente olhar longe nessa questão, não querer fazer uma reforma política já para a próxima eleição. Poder operar algumas mudanças dessas para daqui a oito anos, outras para daqui a 12 anos. De maneira que a gente consiga retirar ao máximo aquela visão de quem vai votar: isso aqui é bom ou é ruim para mim que vou me submeter à próxima eleição?
F/UOL: O sr. esteve com o ex-presidente Lula, conhece bem, agora, a presidente Dilma. Qual é a diferença de atuação política entre Lula e Dilma?
E C: Dilma é sucessora de um mesmo projeto político e de um projeto no país...
F/UOL: Mas eles têm diferenças.
E C: Têm diferenças, claro...
F/UOL: Quais o sr. apontaria?
E C: Não... [eles] têm diferenças de caminhada, de estilo pessoal. Mas o fundamental é que eles estão no mesmo projeto. Quem imaginar que vai colocar Dilma num projeto e Lula em outro efetivamente eu acho que está imaginando errado. Não vai conseguir. Claro que os estilos, a formação pessoal, a história de vida de cada um, em tudo isso dá para perceber diferenças. Mas no fundamental, no que é objetivo, no que é essencial ao projeto político e de país eles vão estar juntos.
F/UOL: Algum exemplo, assim, na forma de atuação prática de atuação entre ambos, Lula e Dilma? O sr. nota?
E C: A presidente Dilma ela tem mais um viés, digamos, mais executivo, de quem cuidou por oito anos, inclusive, da gestão no governo do presidente Lula. Ela nunca foi, assim... teve mandatos no parlamento, ou vida orgânica nos partidos. Isso tudo se percebe o quanto um tem mais desenvoltura na articulação política, no diálogo com os dirigentes partidários. Mas o fato objetivo é que, eu tenho dito isso várias vezes, a presidenta Dilma tem se saído melhor, a meu ver, como presidenta do que como se saiu como candidata. Eu tenho expressado em nome do nosso partido a ela a nossa solidariedade com as decisões que ela tem tomado, com o equilíbrio que ela tem demonstrado.
F/UOL: O sr. mencionou que ela era uma pessoa que sempre esteve mais dentro da gestão, do Estado, e menos como política, porque não exerceu mandatos. Mas ela fez a nomeação do ministério dela e agora já houve quatro ministros que tiveram que sair por causa de alguma suspeita de irregularidade. Ela não deveria ter tomado mais cuidado nessas nomeações?
E C: Em qualquer democracia do mundo há mudanças de ministros. Ela não vacilou quando foi chamada a tomar decisões. É isso que eu destaco.
F/UOL: Está muito cedo ainda: 2014, o melhor candidato do campo do governo hoje seria Lula ou Dilma?
E C: Todo o esforço do conjunto da base do governo é no sentido de dar à presidenta Dilma as condições de fazer a disputa de 2014.
F/UOL: O PSB tal como em 2010 estaria pronto para apoiar uma reeleição da presidente Dilma?
E C: Estaria. Nós temos, nós estamos na base [de sustentação do governo]. Nós temos torcido pelo êxito do governo dela, temos sido parte da solução, não temos sido parte do problema [risos]. Temos todo o interesse de ajudá-la para que ela ajude o Brasil em um momento tão complexo da vida mundial. Nós temos dois grandes blocos econômicos importantes para o Brasil vivendo uma crise que a meu ver não vai ser superada em uma questão de dias ou de meses. Como o que acontece hoje na Europa e nos Estados Unidos da América, ainda em consequência de 2008. E nós precisamos pensar o Brasil, pensar as futuras gerações, até para não vivermos os mesmos problemas que estão sendo enfrentados por esses blocos econômicos. Nós temos aí uma janela demográfica importante, para tomar decisões importantes, para alavancar o investimento público, para investir em inovação, para dar competitividade à economia brasileira. Essa é uma temática que eu acho que deve vir para a mesa do debate brasileiro.
F/UOL: Em que circunstâncias a presidente Dilma não poderia concorrer à reeleição.
E C: Eu não vejo. Um ato pessoal dela de não querer, de não desejar e não pleitear. Fora disso na tradição, jovem tradição brasileira com a permissão de reeleição, todos os governantes, prefeitos, governadores e presidentes têm ido para a reeleição e na maioria das vezes, na esmagadora maioria das vezes, não havendo um desastre de administração, os candidatos à reeleição, ou não tendo uma competição muito desequilibrada do ponto de vista político, os gestores têm tido êxito numa reeleição.
F/UOL: O sr. não pode ser candidato em 2014 à reeleição, porque já está no segundo mandato. Olhando para a frente, o sr. tem desejo de continuar na carreira política em qual caminho?
E C: Eu já fui na política mais do que imaginavam e do que eu imaginava que ia ser. Eu tenho 46 anos de idade. Já fui deputado estadual, com papel no meu primeiro mandato reconhecido pela sociedade pernambucana. Depois, três vezes deputado federal, tendo sido deputado federal mais votado do meu partido, fui ministro, fui secretário de estado, governador pela segunda vez. E acho que a gente pode fazer política sendo candidato a muitas outras coisas, mas não necessariamente tendo mandato. Eu sou presidente de um partido político, que é uma atividade que me encanta muito, construir um partido.
F/UOL: O sr. se sente qualificado para estar numa chapa presidencial no futuro?
E C: Eu não discuto isso, Fernando. Sinceramente, porque eu acho que é tão longe 2014, que eu acho que até com respeito ao eleitorado e com respeito ao bom senso brasileiro... Quem fica discutindo eleição três anos antes discute, discute e não consegue êxito. Eu fiz duas eleições majoritárias recentes. Graças a Deus e à generosidade do povo pernambucano, tive êxito nas duas. Porque discuti eleição no tempo certo. Cada dia que passa a sociedade deseja mais dos políticos discutir a sua pauta e não a pauta dos políticos.
Agora mesmo, vim de uma reunião na Presidência da Câmara, na casa do presidente da Câmara, Marco Maia, com todos os líderes partidários e diversos governadores, para discutir a questão da saúde. Mais recursos para a saúde.
F/UOL: Nesse caso da saúde o que foi decidido?
E C: Que vai se votar a Emenda 29, a meu ver sem nenhum imposto. A regra, só a regra da Emenda 29, vai para o Senado.
F/UOL: E como vai se resolver a forma de obter os recursos que estão ali disciplinados pela Emenda 29 agora com essa regulamentação?
E C: No nosso caso, por exemplo, em Pernambuco, nós temos já 17,5% da receita já sendo investidos em saúde. Investimos em saúde 17,5%, então a Emenda 29 não resolve. Talvez aí a "Emenda 40", a Emenda 29 já passamos e muito. Acho que melhorar a qualidade do gasto é um caminho, um outro caminho é você... O SUS, as verbas federais poderem diferenciar os Estado que já estão fazendo muito. Ou seja: quem bota mais, receber mais também. Tem a possibilidade, surgiu uma... foi feita uma proposta no sentido de a União rever a taxa de juros que está sendo cobrada a alguns Estados e esse recurso que hoje está indo para os juros os Estados se comprometerem a investir mais em saúde.
F/UOL: Juros de quê?
E C: Da dívida [dos Estados com a União]. Tem juro de 18%, 19%.
F/UOL: Vários colegas seus governadores são favoráveis à criação de uma nova forma de arrecadação, um tributo, a contribuição social, por exemplo, que está aí pensada, uma nova CPMF, um imposto do cheque. O Sr. acha que não deve ter isso de maneira nenhuma?
E C: Eu acho que não deve ter isso. O momento passou, era um momento do debate da CPMF lá atrás, quando se tentou e eu procurei ajudar isso, uma pactuação entre governo e oposição, e muitos da oposição ajudaram para a gente cumprir o que era o discurso e não foi a prática, que era o dinheiro da CPMF para a saúde. Na hora que fizeram a CPMF e não colocaram 100% na saúde se perdeu o link com a sociedade para defender o imposto do cheque para a saúde.
F/UOL: Essa proposta que apareceu de reduzir o juro cobrado pela União dos Estados sobre as dívidas apareceu agora nessa reunião de hoje ou é algo que já existia e se consolidou?
E C: Não, essa proposta estava na pauta dos governadores com a presidenta já há uns cinco meses. Hoje é que se falou, o governador do Mato Grosso falou, o Silval [Barbosa, do PMDB], no sentido de vincular: se vier a reduzir [os juros], que esse dinheiro seja bloqueado para uso na saúde.
F/UOL: Houve certo consenso em torno dessa proposta para levar ao governo...
E C: O presidente Marco Maia disse que iria criar uma comissão para se debater nova fontes de financiamento, não necessariamente criando novos impostos. Pode-se ter recursos no próprio orçamento da União, mecanismos outros de financiamento, que já constem do próprio orçamento da União.
F/UOL: Quem vai vocalizar agora essa proposta para o Ministério da Fazenda a partir de agora? Ficou alguém designado para fazer isso?
E C: Eu acredito que a Emenda 29 ela vai ter curso normal, Câmara e Senado, sem se tratar de imposto. Em paralelo a isso, há uma frente nacional da saúde muito articulada, suprapartidária, com gente de grande expressão no parlamento. E com essa ideia do presidente Marco Maia de criar uma comissão, acho que todas essas pessoas, que sejam governadores, prefeitos, movimento da saúde pública no Brasil vão ter a oportunidade de trazer uma sugestão como essa que foi feita.
F/UOL: O sr. diria que essa hoje é a mais exequível ou não?
E C: Acho que essa é a mais exequível, porque não é justo também que os Estados mais pobres do Brasil estejam pagando o dobro da Selic ao governo Federal. Quer dizer, o governo federal se financia há 11% e cobre 19% na intermediação financeira que tem feitos com os Estados.
F/UOL: Queria voltar ao tema de 2014. Ciro Gomes pertence ao PSB. Ele já foi candidato a presidente duas vezes e continua a ter aspirações. Que papel terá Ciro Gomes em 2014? Ele poderá voltar a ser candidato pelo PSB?
E C: Ciro é um grande quadro da política, um talento, alguém com grande capacidade técnica. Um brasileiro honrado, que nos honra muito tê-lo, como ter o governador Cid, no nosso partido nos ajudando a caminhar. Ele terá, sempre que se fizer um debate sobre o Brasil, Ciro terá um papel importante e estratégico dentro do partido e além das fronteiras do partido.
F/UOL: Mas como candidato a presidente?
E C: Eu acho que hoje é precipitado dizer que vamos ter um candidato a presidente. Nós somos parte de uma base de uma presidenta que pode ir à reeleição. Nós apostamos que ela tenha as condições de ir à reeleição. Na hora em que nós entendermos que o partido deve ter um candidato eu acho que chega a hora de a gente sair do governo e ficar a vontade. Mas neste momento a decisão do partido é muito claramente de apoiar a travessia da presidenta Dilma no seu primeiro instante de governo, ajudar o Brasil e tratar de eleição lá em 2014. Antes é precipitação.
F/UOL: O seu partido tem alianças regionais, municipais ou estaduais, com outros partidos que são oposição ao governo federal. Sobretudo com o PSDB. O sr. também tem uma relação amistosa com Aécio Neves [senador pelo PSDB-MG]. E Aécio Neves é um dos presidenciáveis do PSDB. O sr. descartaria então, eventualmente em 2014, estar ao lado de Aécio Neves caso ele seja candidato a presidente?
E C: Nós já estamos ao lado de Aécio lá em Minas. Em Belo Horizonte em particular estamos do lado de Aécio. Nós e o PT também que nos ajudaram, tanto o Aécio [Neves, senador pelo PSDB-MG], Anastasia [Antonio Anastasia, governador de Minas pelo PSDB], como Fernando Pimentel [do PT, ex-prefeito de Belo Horizonte] e as lideranças do PT nos ajudaram a eleger o Márcio Lacerda [prefeito de Belo Horizonte, do PSB].
F/UOL: Mas isso é para trás?
E C: Não. É a repetição dessa aliança. E se você for andar em Minas Gerais, tem mais aliança lá no interior do PT com o PSDB do que com o PSB. Como tem também em outros Estados. No meu Estado, por exemplo, existe esse tipo de aliança.
F/UOL: Mas... Aécio Neves 2014?
E C: 2014 não chegou ainda para a gente estar discutindo 2014 agora. Eu faço parte de um conjunto de forças e Aécio, que é meu amigo, de quem fui colega na Câmara, tive oportunidade de votar nele para presidente da Câmara, fazer sua campanha, ele foi um grande presidente da Câmara, que cumpriu os compromissos que assumiu, inclusive com a oposição. A própria Comissão de Participação Popular que era sugestão da [deputada Luiza] Erundina [PSB-SP] para ele para apoiá-lo ele cumpriu e honrou e a primeira presidenta foi a Erundina. Nós temos uma relação muito boa. Nós somos amigos a despeito da política. Ele hoje está na oposição. Ele está bem na oposição e eu estou bem no governo.
F/UOL: O PSB, o seu partido, e o sr., se não ajudaram propriamente não atrapalharam nem de longe a criação do PSD, partido que está aí sob o comando do prefeito de São Paulo Gilberto Kassab, essa nova legenda. Há indicação de que o partido de Kassab formado dentro do Congresso haverá uma aliança PSB-PSD. Isso é um fato já?
E C: Não. O processo ainda está acontecendo de consolidação do partido. Eu fui colega do Kassab aqui no Congresso Nacional, temos parcerias do PSD com o PSB em diversos Estados. Além do PSB com o PSD em outros tantos. É fato também essa parceria que ele tem com Estados com o próprio PT, em outros com o próprio PSDB.
F/UOL: Mas poderia ser feito um bloco na Câmara?
E C: Não discutimos isso ainda. Não houve esse debate.
F/UOL: O sr. vê com bons olhos?
E C: Esse debate caberá à Câmara fazer. Não cabe a mim...
F/UOL: Mas como presidente do partido o sr. acha que é um bom aliado?
E C: Eu que é um bom aliado. Um bom aliado nos vários Estados será um bom aliado nosso. Mas a dinâmica do Parlamento vai cabe às nossas bancadas decidir.
F/UOL: Uma vez consolidado, o PSB será o 28º partido político brasileiro com registro no TSE. São muitos partidos e as alianças são variadas também. O PSB faz alianças com um arco grande de partidos. Isso não confunde a cabeça do eleitor?
E C: Olha, na verdade nós temos uma democracia muito recente, Fernando. A gente fica querendo ter o mesmo padrão dos partidos importando de situações completamente distintas da nossa, de países que têm 100 anos, 200 anos de estrutura partidária. Eu acho que a gente já avançou muito para um país que tem hoje o mais largo período... o mais largo período democrático e só faz 22 anos que a gente elege um presidente da República. Veja um jovem de 22 anos. Quando eu tinha 22 anos eu achava que tinha a maior maturidade do mundo. Achava que já tinha acabado minha formação superior, achava que conhecia muita coisa. E hoje eu vejo o quanto eu não conhecia. O quando eu tinha de imaturidade, o quanto eu tinha para aprender. Você imagina... A nossa democracia é isso. Nós temos muito que aprender. Eu acho que mais 50 anos. A gente tendo liberdade de expressão, de organização partidária, o povo votando, comendo mais, educando mais, a gente vai ter partidos muito melhores que a gente tem hoje.
F/UOL: O sr. é do PSB, Partido Socialista Brasileiro, é neto de Miguel Arraes. O PSB tem uma tradição na esquerda do espectro político do Brasil. O sr. se considera um político de esquerda?
E C: Me considero. Me considero um político de esquerda, sim. Até porque essa foi a minha formação, minha caminhada. Agora, o que é que é ser de esquerda hoje? É a mesma coisa que ser de esquerda no início do século passado na União Soviética? Não é. Quer dizer, o mundo mudou, a relação de trabalho se alterou. Eu acho que muitas experiências não deram certo, outras deixaram um legado, enfim. Nós precisamos compreender as alterações que foram processadas pela ciência e pela humanidade para compreender o que é ser de esquerda hoje.
F/UOL: Pré-sal. Qual vai ser a melhor forma de partilha dos recursos do pré-sal e como vai se chegar a esse acordo?
E C: Bom senso e equilíbrio.
F/UOL: Mas é o que está faltando...
E C:...Por isso que a gente tem de colocar. Bom senso para compreender que não dá para tirar de quem já tem ali aquela receita. Ou seja, não dá para você chegar num Estado que tem sua Previdência praticamente lastreada com esses recursos e dizer assim: "Amanhã você não vai ter". Não é assim. Bom senso para saber que nós vamos poder rasgar contratos. Porque esse é um valor que o Brasil tem consolidado ao longo de governos. O governo Fernando Henrique [Cardoso - 1995-2002] cuidou disso. O governo do presidente Lula [2003-2010] cuidou disso. O governo da presidenta Dilma tem cuidado disso.
F/UOL: O sr. imagina um acordo próximo ou falta muito ainda?
E C: Eu acho que a gente está mais próximo, mas muito mais próximo de um acordo do que no ano passado, quando o calor da eleição esquentou muito o debate...
F/UOL: A Pernambuco interessa a partilha por igual ou aquela que preserva os Estados produtores?
E C: Olha, nós temos de sentar à mesa para fazer um acordo. Eu não posso sentar na mesa para fazer um acordo com você achando que eu vou impor o meu desejo. Para fazer o acordo nós já temos três estágios. O primeiro estágio é o que está rodando hoje em termos de exploração de petróleo. O outro estágio é aquilo que vai rodar no futuro sobre as novas regras. E aqui no meio está aquilo que já foi concedido, mas não rodou. Tem os três estágios. Já há uma aproximação de acordo sobre o primeiro estágio. Os Estados entre si e agora tem de chamar a União. Acordar o seguinte: nós não vamos tensionar para tirar nada de quem já tem. Ao mesmo tempo, quem é chamado produtor acorda que no futuro a gente topa uma regra mais paritária possível. Ou seja, não é 100% paritária, mas seria quase. Ou seja, todos seriam tratados iguais. Aonde é que está o nó, aonde é que está o problema. O problema é a travessia dos próximos oito anos. Criou-se uma expectativa nos prefeitos, nos governadores que entraria algum recurso já no próximo ano. E não tem esse recurso se alguém não abrir mão. A União, que dizia não, já admitiu abrir mão de alguma coisa. Nós [Estados] temos de abrir mão também da pedida também, ou seja, pedir um pouco menos nessa transição. Agora restam uns ajustes para acertar esse tempo de transição e agente evitar que esse processo vá para a Justiça. Porque é ruim para a Justiça, vai ser ruim para as partes e acho que será ruim para o Brasil.
F/UOL: Um cronograma exequível para chegar a esse acordo seria quanto tempo?
E C: Até o dia 5 de outubro [de 2011, data pré-marcada para que seja votado o veto presidencial ao projeto já aprovado pelo Congresso]. Porque já se adiou várias vezes essa votação. Agora o presidente [José] Sarney [do Senado] afirmou que colocará em votação. Se o presidente Sarney colocar em votação o veto aposto pelo Lula ao projeto que dividia tudo, o antigo, o novo e o futuro por igual, se o Senado derrubar o veto vai, na verdade, vai valer essa regra e essa regra, valendo, ela quebraria o Estado do Rio de Janeiro, e municípios, como também o Estado do Espírito Santo. Logo, esses governantes irão à Justiça e terão uma possibilidade, aí é 50% a 50%, pode ser sim ou não, mas terão uma possibilidade enorme de ter uma decisão suspendendo. E aí quando é que se resolve isso? Quem queria 100% vai ter zero.
F/UOL: Ou seja, tem de ter um acordo antes da votação do veto?
E C: Tem que ter um acordo antes, acho que está evoluindo. O ministro Guido [Mantega, da Fazenda] tem conversado. Esta semana pararam as conversas um pouco porque ele acompanhou a presidenta nessa ida dela aos Estados Unidos, mas eu quero crer que a próxima semana será muito animada nesse tema.
fonte: http://jc3.uol.com.br/blogs/blogjamildo

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